sábado, 21 de janeiro de 2012

Tantra - Meu corpo, universo desconhecido...



O corpo é a nave central e catedral do Tantra. Para o Tantra ele não é um humilde servidor, nem a tremule carcaça a qual Turenne se dirigia durante a batalha; nem a antítese do Espírito, sede dos apetites grosseiros, coisa desprezível, que melhor seria submeter e mortificar para salvar a alma.
Para o Tantra, o corpo é bem mais que um maravilhoso instrumento de manifestação ou uma admirável mecânica biológica: ele é divino. Divino?O corpo?No limite ainda é aceitável que se divinize o cérebro, sede da consciência, mas as tripas...

Não exageremos! No entanto...
Para compreender esta chave do Tantra é preciso realizar que:
- O corpo real é, de fato, um universo de extraordinária complexidade, cuja vida secreta é totalmente desconhecida;
- O corpo é produzido e animado por uma inteligência criadora, a mesma que suscita e preserva o Universo, da mais ínfima partícula subatômica à mais gigantesca das inumeráveis galáxias.
- O corpo abriga, em suas profundidades ocultas, potencialidades insuspeitas, energias extraordinárias, cuja maioria permanece latente no homem comum, mas que a prática tântrica desperta e desenvolve.

Objeção: desconhecido, esse corpo que sinto viver e palpitar, que sei que tem fome ou sede, se sofre ou goza? Resposta: o corpo-vivenciado, percebido, é uma simples representação mental, que não tem muito a ver com a grandiosa realidade do corpo real.
Raciocinemos: Tiro meu relógio de pulso e coloco-o sobre a mesa, bem diante de mim. Sem que eu suspeite, estou diante de sois relógios: o relógio objeto (exterior ) e o relógio –imagem (interior) que observo em minha frente. O relógio-objeto, o dos físicos, o verdadeiro, se compõe de átomos constituídos de ínfimos grãos de energia. Desde Einstein, sabemos que a matéria, que nos parece tão tangível e concreta, é energia, mas principalmente vazio. Como já disse antes, suprimindo o espaço entre as partículas atômicas, nosso planeta caberia ao que parece, num dedal, ainda mantendo a mesma massa! Meu relógio-objeto-real é, portanto, vazio, um campo de forças turbilhonantes que meu intelecto não consegue representar. Mesmo sabendo tudo isso experimentalmente, o físico nuclear não é privilegiado, ele só vê, assim como eu, seu relógio-imagem interior, seguro, compacto, que só existe em seu cérebro - ou, sobretudo, em sua mente, conforme o pensamento indiano. O relógio-imagem oculta o relógio-objeto, esse véu é o maya do vedanta.

E chego aqui a um ponto crucial no que se refere ao corpo: afinal, tenho também dois corpos!Um corpo objeto (desconhecido) e um corpo-imagem9vivenciado) e confundo os dois. Ou melhor, ignoro completamente o primeiro! É mais fácil compreender esta sutileza – perdão, essa verdade fundamental-observando qualquer outra coisa. Então, observem-me olhando meu relógio, colocando sobre a mesa. Como acontece a percepção? É simples, pelo menos aparentemente: a luz bate no objeto, atinge minha retina ,que remte mensagem sob formas de impulsos elétricos, ao córtex cerebral, por intermédio do nervo óptico. Assim, o relógio-imagem que olho surge em algum lugar dentro da minha cabeça, em minha mente. Atordoante constatação: por toda a vida tenho olhado imagens do mundo exterior em minha mente, acreditando estar vendo o mundo exterior: surpreendente, mas verdadeiro. Objetarão que isso não faz muita diferença, porque se acredita que é reflexo exato do outro , assim como a imagem de uma paisagem no espelho é idêntica à imagem propriamente dita. Ao supor-se que também seja assim quanto às imagens que surgem no mundo exterior, comete um erro grosseiro. De fato, essas imagens correspondem tão pouco á realidade exterior quanto a planta de uma cidade à cidade propriamente dita e seus habitantes: ela é apenas um esquema utilitário.

Agora, atenção! Continuo e ponho novamente meu relógio no pulso. O que acontece então? Nada mudou: ele continua sendo uma imagem em minha mente. Mas o pulso? Aí também devo fazer uma distinção entre meu pulso real, material composto de energia, e meu pulso-imagem em minha mente.Nesse ponto do raciocino muitas pessoas ficaram perturbadas e bem as compreendo, porque eu mesmo levei meses para distinguir verdadeiramente os objetos exteriores de uma imagem interior, para então compreender que são dois fenômenos inteiram,ente distintos, embora imbricados.
É, aqui em geral, tropeçamos! Pois bem, contatamos que io relógio exterior é uma coisa e o relógio exterior, outra coisa; e este, de fato é o único que conheço. Na vida prática, este me basta: não é preciso nenhuma distinção sutil entre relógio objeto e relógio –imagem, pois isso não me impede de ver as horas. Quanto ao meu corpo, é diferente: eu sinto, então logo, ele sou “eu”, não? É isto o que se costuma pensar pois é normal e natural que de certa forma, se subtraia o próprio corpo do mundo exterior do mundo exterior : de um lado está minha mente e o “eu associada ao corpo e do outro lado(fora), está todo o resto a multidão de seres e coisas.. Assim, em pensamento, artificialmente isolo meu corpo de todo o resto do mundo, enquanto ele é um agregado de átomos tão materiais e banais quanto os de todos os objetos do exterior com os quais estou em contínua relação de troca: diuturnamente absorvo moléculas de ar, de alimento e rejeito outro tanto. Meu corpo é um edifício em sua forma enquanto seus tijolos são trocados incessantemente. É uma evidência que ignoramos: o corpo faz parte do universo material do qual é indissociável; ele é uma engrenagem na imensidão cósmica. Minha relação com o meu corpo me é particular. Na realidade, meu corpo, embora material é o lugar privilegiado” do espaço onde “eu” estruturo a matéria, onde “eu” construo esse corpo humano.

Eu” entre aspas porque não é preciso dizer que não é meu pequeno eu, mas a Inteligência superior no meu corpo que o suscita e o mantém. Mas, enfim, sou eu e não qualquer agente exterior que faz isso. Independentemente de religião ou filosofia é inegável que todos os meus níveis de existência, quaisquer que sejam, estão em meu corpo, mesmo que minha fé me leve a considera-lo mais do que simples carne mortal. Esse corpo real, repito, é um universo desconhecido, gigantesco em escala celular e que não deve ser confundido com o corpo-imagem da mente. Certamente, a princípio, temos dificuldades para digerir isso, porque parece contradizer a experiência diária. A planta da cidade, simples esquema tem uma certa relação com a cidade – a planta de Paris não é a mesma de Londres-; mas é isso o que fazemos na mente, com a imagem do corpo. O corpo que vivencio é uma planta; um esquema , muito propriamente chamado de “esquema corporal”, distinto do corpo-objeto-real.
Avancemos mais um passo!Por inabilidade, em vez de bater com o martelo na cabeça do prego, dei com o martelo no dedo!Ai!...Não me venham dizer que esta dor nada mais é do que uma imagem em minha mente, e que um martelo feito de vazio, bateu num dedo também oco. Mas é isso mesmo!Na realidade, tenho dor na imagem do meu dedo, na imagem de meu corpo, em algum lugar da minha mente!Fisiologicamente meu dedo real não sente dor alguma. Os nervos atingidos enviam a mensagem para o cérebro, que a traduz em dor. Assim, em algum lugar em minha mente- e somente aí- nasce a imagem da dor, na imagem do dedo, na imagem do corpo!Outra objeção: mas sinto dor! Verdade. Mas há algumas seitas – conheço adeptos- que ensinam técnicas que permitem modificar a mensagem da dor em prazer!Eles enfiam ganchos no corpo, deliciados... (saibam que isso nada tem a ver com tantra). Sob hipnose é fácil inverter a s percepções de uma pessoa; por exemplo, insensibilizar totalmente seu braço e enfiar agulhas, sem que o hipnotizado sinta dor. Que a dor nos pareça um fato inegável da experiência não impede que seja um fato mental puro, e isso não é sinônimo de irreal num sentido absoluto.

Na Bíblia (Gen. III, 16) deus amaldiçoou a mulher: “Multiplicai sua dor e tua concepção e com dor parirá seus filhos”. As dores do parto não são consideradas o limite do suportável?

No entanto, um obstetra inglês, Carol Reed , conseguiu muito bem reduzi-las , até suprimi-las , pedindo- paradoxalmente- a parturiente que se concentre nas contrações musculares uterinas. Enquanto ela abstrair idéias socialmente implantadas, de sofrimentos associadas ao parto, não sentirá dor verdadeira. Se, ao contrário, ela pensar em dor para resistir a ela, se contrairá e sofrerá. Graças aos exercícios pré-natais apropriados, ela se torna capaz de sentir a contrações do útero como tensão muscular normais, aceita-as e abandona-se a elas e não sofre de verdade. A shakti tântrica vai ainda mais longe: vive intensamente toda a gravidez, participa conscientemente do desenvolvimento da vida em seu ventre sabendo que, no momento do parto, confiando e deixando agira a Inteligência superior do corpo escapará à maldição bíblica.
E isso nos leva à Sabedoria suprema do corpo, homem ou mulher, devo tomar consciência de que meu corpo é um agregado de bilhões de células, todas vivas, todas conscientes, todas inteligentes, cuja vida secreta e profunda eu sempre ignorarei.

Então, perguntarão: “Mas por que então se preocupar, se a coisas funciona por si?” (sempre funciona assim tão bem?). Por que me preocupar com esse corpo real, diferente do corpo vivenciado?E se deixássemos tudo isso para os filósofos?Nâo seria nada bom, pois esse corpo real desconhecido é um extraordinário mosaico de poderes inexplorados, e isso desemboca diretamente na prática tântrica.
(Van Lysebeth - Tantra Culto da Feminilidade)

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